Em uma entrevista rara de 1968, J.R.R. Tolkien compartilhou reflexões surpreendentes sobre sua obra mais famosa, “O Hobbit”, e suas próprias experiências de vida. O autor revelou que, se um mago como Gandalf o tivesse convidado para uma aventura em sua infância, sua resposta teria sido um retumbante não. “Eu não tinha o menor desejo de me colocar em uma posição estranha apenas para ter uma aventura”, confessou Tolkien, enfatizando sua educação que o ensinou a evitar estranhos. Essa confissão, que ficou esquecida por décadas, foi recuperada em 2019 e apresenta um lado mais pessoal do criador da Terra Média.
A primeira edição de “O Hobbit” foi lançada em 21 de setembro de 1937, data que agora celebramos como “Semana Tolkien”. Tolkien relembrou uma caminhada nas montanhas da Suíça em 1911, um episódio que o inspirou a escrever sua história sobre Bilbo. “Cruzamos desfiladeiros e escapamos da morte por pouco, o que tornou a jornada de Bilbo uma experiência pessoal verdadeira, embora naturalmente alterada”, explicou. “Não encontramos goblins, mas a essência da aventura era real.” Essa conexão íntima entre suas vivências e a ficção que criou revela a profundidade de sua imaginação.
A paixão de Tolkien por idiomas também se destacou durante a conversa. Ele contou como sua curiosidade o levou a estudar finlandês na Universidade de Oxford, mesmo quando deveria estar focado em outros estudos. “Ele realmente me deixa bastante inebriado”, disse sobre o idioma. Essa fascinação por linguagens resultou na criação das línguas da Terra Média, que possuem raízes no finlandês e no grego, entre outros. Essa dedicação à etimologia, adquirida enquanto trabalhava no Dicionário Oxford da Língua Inglesa, moldou seu universo literário de forma singular.
O autor também se debruçou sobre Gollum, um dos personagens mais complexos de sua obra. Ele descreveu Gollum como “um exemplo de corrupção” e refletiu sobre a ironia trágica de seu destino. “O momento mais trágico ocorre quando Sam, com suas boas intenções, impede o arrependimento de Gollum”, observou Tolkien. Essa percepção sobre a dualidade do bem e do mal é central em sua narrativa, onde as intenções podem levar a consequências inesperadas e dolorosas.
As gravações recuperadas da BBC revelam não apenas a mente brilhante de Tolkien, mas também suas reflexões sobre a vida e a moralidade. Ele reconheceu que, embora as linhas gerais de suas histórias possam parecer simples, a realidade é muito mais complexa. “Você observa o mal no lado bom”, concluiu. Essa visão multifacetada ressoa com os leitores, mostrando que as lutas internas e as nuances da moral humana são temas que transcendem gerações.
Crédito da imagem: O escritor J.R.R. Tolkien



