O funk intitulado “Solinho do Fora PT”, que se tornou um verdadeiro hino nas manifestações em apoio a Flávio Bolsonaro (PL) durante a eleição de 2026, tem uma origem muito mais antiga e surpreendente do que muitos imaginam. A melodia que embala os versos de crítica à esquerda é, na verdade, uma adaptação do tema do famoso videogame Tetris, que remonta a uma canção popular russa do século 19.
Originalmente conhecida como “Korobeiniki”, essa canção tem suas raízes em um poema de Nikolai Nekrasov, publicado em 1861, que narra a história de um vendedor ambulante. Com o tempo, ela se tornou uma canção folclórica na Rússia, ganhando notoriedade na União Soviética após a Revolução de 1917, sendo até gravada pelo coro do Exército Soviético.
A transição da melodia para o mundo dos jogos ocorreu em 1989, quando o compositor japonês Hirokazu Tanaka a transformou no tema do Tetris para o Game Boy, o que a fez alcançar fama internacional. No Brasil, a melodia encontrou seu caminho no funk carioca no início dos anos 2000, quando a Furacão 2000 lançou “Jonathan da Nova Geração”, que misturava essa famosa trilha com outros ritmos do gênero.
Na campanha de 2026, a reinterpretação da canção trouxe letras que atacavam o Partido dos Trabalhadores e a esquerda em geral, e sua popularidade cresceu rapidamente, especialmente entre os “bloquinhos do 22” e comícios do candidato à presidência. Embora a utilização do funk como ferramenta de campanha tenha gerado críticas, especialmente por parte daqueles que associam o gênero à “narcocultura”, os políticos de direita parecem ter encontrado no ritmo uma forma eficaz de mobilizar seus apoiadores.
A ironia dessa história é notável: uma melodia que ecoou nas praças da antiga União Soviética agora ressoa nas ruas do Brasil, acompanhando um discurso político que a critica. Ao mesmo tempo, figuras como Lucas Pavanato, um dos protagonistas da campanha, reconhecem que o problema não está no ritmo do funk, mas nas letras que o acompanham. Essa dualidade revela a complexidade das relações culturais e políticas, onde referências do passado podem ser ressignificadas em contextos completamente diferentes.


